quarta-feira, 2 de abril de 2014

RESENHA HQ| Retalhos, de Craig Thompson

Blankets
Autor: Craig Thompson
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 592
Ano: 2009

Um sensível baile de sentimentos, uma prece, uma confissão. 


Sinopse: Thompson retrata sua própria história, da infância até o início da vida adulta, numa cidadezinha de Wisconsin, no centro dos Estados Unidos, que parece estar sempre coberta pela neve. Seu crescimento é marcado pelo temor a Deus - transmitido por sua família, seu colégio, seu pastor e as trágicas passagens bíblicas que lê -, que se interpõe contra seus desejos, como o de se expressar pelo desenho.


Ao mesmo tempo Thompson descreve a relação com o irmão mais novo, com quem ele dividiu a cama durante toda a infância. Conforme amadurecem, os irmãos se distanciam, episódio narrado com rara sensibilidade pelo autor.


Com a adolescência, seus desejos se expandem e acabam tomando forma em Raina - uma garota vivaz, de alma poética e impulsiva, quase o oposto total de Thompson - com quem começa a relação que mudará as visões que ele tem da família, de Deus, do futuro e, enfim, do próprio amor. Retalhos traz as dores e as paixões dos melhores romances de formação - mas dentro de uma linguagem gráfica própria e extremamente original.



Li em um dia. Ou melhor, algumas horas podem ser até demais. Eu devorei essa tão emocionante história vorazmente, e está difícil aguentar esse vazio no meu coração por ter contemplado o fim.

Digamos que é difícil definir o quase perfeito, ainda mais quando isso se faz com base em sentimentos. Valorizo demasiadamente todas as outras formas de apresentar uma história, sim, mas não sei se algo pode superar uma história que passa toda essa aura etérea tendo como base o simples ato de sentir, de mostrar ao mundo o que foi sentido, quase da maneira que foi. Seja nos expressivos desenhos, seja nos pensamentos de Craig (o autor e protagonista da história), esse baile me fez vagar em passos silenciosos, mas turbulentos e emocionantes.

Retalhos nada tem de exótico e acho que é isso o que faz dele tão marcante. Afinal, o que esperar de quase 600 páginas falando simplesmente da vida de um cara do qual nunca ouvi falar? Um passatempo? Posso até ter pensado assim no começo, mas, agora que li, minha resposta é: tudo. Nós não acompanhamos simplesmente a narração da vida de Thompson como uma biografia qualquer, que já estamos tão acostumados a ler. Em Retalhos acompanhamos o desenvolvimento de uma criança, seu desenvolvimento moral, sexual, social, religioso. Enxergamos através de olhos tímidos e frágeis, servos de um menininho que não se encaixava... Ok, isso pode estar seguindo um rumo meio clichê, mas não se engane, pois esse menininho é muito mais surpreendente do que imaginei. Vou dar algumas razões.

Moral e religião

Muitos são os conflitos quais Craig enfrenta dentro de si mesmo em Retalhos, mas, como um círculo vicioso, sempre acabamos sendo redirecionados à religião, que é parte integral da moral do menino. Estou acostumado a ler a respeito de protagonistas tristes, felizes, corajosos, rebeldes... Mas e protagonistas religiosos, protagonistas que elevam sua fé e que dão real valor a ela? Isso não é muito bem retratado na literatura, e quando é, parece que está ali apenas como uma superficial crítica ao cristianismo ou qualquer que seja a religião. É claro que temos algumas (várias) críticas à religião em Retalhos, mas isso se retrata de maneira tão profunda, pessoal e verdadeira que passamos de simples leitores a entendedores. Thompson praticamente desabafa a respeito de seus medos, as consequências, como cada ação sua percutirá em sua vida carnal e espiritual, e, isso aplicando-se na vida de uma criança não só é lindo como é reflexivo. O que nos leva ao próximo tópico.

Sexualidade

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Craig Thompson
E como um jovem assim agiria quando a sexualidade começasse a apitar? Isso também é abordado em Retalhos de um jeito muito próprio, dando belos nuances e poetizando a questão. Porque, convenhamos, não é tão fácil quanto a mídia pinta entrar para esse novo meio, para essa nova vida, ainda mais quando se está tentando se construir a partir de conceitos cultivados desde sempre. É difícil fazer o que se acha certo, e resistir a pressões dói tanto quanto se arrepender depois de já ter ido de cabeça na questão. Isso é lindo, mas, como Craig encara? Vá ler e descubra.


Retalhos é praticamente divido em dois atos, duas relações, que se intercalam em seu decorrer: a relação de Craig com Phil, seu irmãozinho caçula e com Raina, uma garota com quem ele cria uma forte amizade. E é esse intercalar que torna as experiências tão especiais: os momentos são postos na hora certa, de modo que se torna mais fácil absorver a mensagem que o autor está tentando nos levar. E funciona. Isso trabalha em ótimo conjunto com as gravuras, que, ainda que em preto e branco, convertem muito bem as "cores" que precisam ser vistas, entre clareza e escuridão, com páginas cheias de detalhes e outras quase vazias. 

E é bem prazeroso poder acompanhar a diferença dos dois atos, e como um influencia ou influenciou o outro. Mas, com certeza, me toquei mais com as cenas de Craig com Paul; além de serem as mais divertidas, parecem ser as mais sinceras, muito provavelmente devido ao fato de se tratar de duas crianças. Não sei bem explicar... É mais questão de sentir.

Sentir, sim, essa é a palavra chave. Esta é uma Grapfic Novel para gente que está disposta a colocar seu espírito a prova, nu, sem restrições, é um trabalho com o qual você pode se entregar, como um travesseiro bem suave com aquele melancólico cheiro de casa de avó. Um trabalho que se sustenta com o máximo de verdade, destacando a razão, a decepção, o medo, o receio de encarar seus erros e seus demônios, a responsabilidade com a fé... O amor. É tudo uma questão de amor em Retalhos. Inclusive o título.
Essa é minha deixa, até!



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