quinta-feira, 24 de julho de 2014

Resenha: Livro#13: Minha metade silenciosa

Stick
Autor: Andrew Smith
Editora: Gutenberg
Páginas: 304
Ano: 2014

O melhor livro que li no ano (pelo menos, até agora)
E ainda estou me recuperando da saudade.


Sinopse: Stark McClellan tem 13 anos. Por ser muito alto e magro, tem o apelido de Palito, mas sofre bullying mesmo porque é “deformado”, já que nasceu apenas com uma orelha. Seu irmão mais velho, Bosten, o defende em qualquer situação, porém ambos não conseguem se proteger de seus pais abusivos, que os castigam violentamente quase todos os dias. Ao enfrentar as dificuldades da adolescência estando em um lar hostil e sem afeto – com o agravante de se achar uma aberração –, o garoto tem na amizade e no apoio do irmão sua referência de amor, e é com ela que ambos sobrevivem. 


Com um texto emocionante, personagens tocantes e situações realistas, não há como não se identificar e se envolver com este poético livro.

Adoro quando um livro consegue alcançar minhas expectativas e fazer morada nesse mesmo ponto. Confesso que ainda não superei o fim de Minha metade silenciosa, ainda estou devaneando mais e mais, com a danada da minha razão me lembrando que isso não passa de um sonho. Que triste. Mas a vida segue, e, agora que Minha metade silenciosa (lágrimas) me tirou do limbo da não-leitura, muuuuitos livros estão por aí à espera. Ok, vamos então ao que achei.

Se você ouviu por aí que trata-se de um livro poético, isso é totalmente verdade. Poeticamente perturbador, mas as melhores poesias são assim, não é? Minha metade silenciosa não é um simples drama adolescente, longe disso: é uma perturbadora história, repleta de personagens realistas e surpreendentes em suas tão abrangentes complexidades. É aquele tipo de livro onde você nunca encontrará alguém, digamos, 100% formado em seu próprio ser, o que é bem real. Todos estão propensos a mudanças drásticas e suas vidas nunca estão plenamente seguras. Na verdade, ninguém está seguro em si mesmo neste maravilhoso livro.

Ambientado basicamente em Washington e na Califórnia, o livro é um misto de atmosferas, e é bem interessante como isso se faz presente nessa troca de lugares. É como se não fossem apenas dois estados, e sim dois mundos, e isso se percebe muito bem aos olhos de Palito (Stick, no original), o improvável herói desta história (e, caso você leu o livro e me contradiga dizendo que é o Bosten, não, não é).

Por falar no protagonista, ele é - para mim - o tipo de personagem ideal. Não é um adolescente extrovertido e irônico, que tira sarro da própria situação que poderia te fazer se apegar com o tal carisma, mas também não é depressivo e reclamão ao ponto de você sentir aqueeela ânsia de vomito com os seus pensamentos (já que o livro é narrado em primeira pessoa). Ele é simplesmente um menino de 13 anos (embora na sinopse do livro diga que é 14, não, ele começa com 13, aliás, não leia aquela sinopse, está horrível), com seus conflitos e descobertas, numa época não especificada onde claramente existe uma certa falta de informação e de compreensão para os da sua idade.
E, pra piorar tudo, lembra que ele só tem uma orelha?

Isso poderia facilmente desenvolver um ótimo livro sobre bullying, mas o mais impressionante é que não é disso que se trata, basicamente. Claro, o abuso por parte de colegas e outras pessoas aleatórias é, sim, uma coisa presente no dia a dia de Palito, mas... Ah, é complicado expressar. É aquela antiga história: nunca existe só um mal na vida das pessoas. Isso não torna o tema algo negligenciado, não. Palito é uma pessoa mais fechada, que está sempre em procura de se esconder pela vergonha e pelo medo daqueles comuns olhares que está tristemente acostumado a receber. Entretanto, ele não está totalmente desprotegido.

"Eu sou feio."

Apesar de não ser o herói da história, o melhor personagem com certeza é Bosten, o irmão mais velho. 16 anos e uma coragem impressionante, sem falar do belíssimo senso de proteção que ele cultiva pelo irmão. Sem discussões, não tenho a menor dúvida de que o ponto alto deste livro é a relação entre os irmãos. Adoro isso. Família. A demonstração de que o verdadeiro amor é muito mais do que simplesmente uma paixão, ou calor humano. Palito vê em Bosten sua sentinela, sua válvula de escape de todo aquele sofrimento com que ele está forçado a se deparar. Mas Bosten também tem os seus graves dilemas.

Outra personagem bem interessante na trama é Emily, a melhor amiga de Palito. Assim como ele (mesmo que não fisicamente) ela é diferente e meio desconjuntada em relação ao ambiente escolar, o que faz com que ambos se sintam ainda mais próximos. Suas cenas juntos são quase que adultas, de tanta profundidade que passam, e o que se desenvolve é uma linda história de amizade e força, com muita reciprocidade de sentimentos.

Por último, gostaria de destacar Tia Dahlia. Não vou falar muito sobre ela, porque adorei a maneira como rapidamente foi desenvolvida e introduzida na história, mas vale avisar que as cenas com ela são de chorar. Embora eu não tenha chorado com o livro.

O autor
Adorei o estilo de escrita de Andrew. Não há nada que você possa chamar de refinado, mas também não é totalmente informal. Afinal, é um livro em primeira pessoa. Me agradou demasiadamente ver que ele, sim, um homem já mais velho conseguiu me atingir num trabalho convincente, em que eu realmente pude ser levado a acreditar que estava de fato na cabeça de um jovem de 13/14 anos. Diferentemente do que Harlan Coben mostrou com refúgio (não estou comparando os dois livros em si, apenas a narração em primeira pessoa de um adolescente), não há nada de exagerado e nem muito forçado. Você simplesmente crê que está lendo a respeito de um adolescente, e não é preciso que ele te lembre disso toda hora.

O autor também usa e abusa de temas fortes, sem ter medo de crueza. Andrew Smith não poupa o leitor de cenas fortes e, muitas vezes grotescas, então se você é do tipo que está esperando apenas mais um livrinho YA com um menino triste por ter uma deficiência, sinto dizer, mas você está enganado. Minha metade silenciosa é realista e belo, é poético. É o tipo de livro que te emociona e te choca, mais do que um mero sentimentalismo, onde o pouco é o suficiente. Sou um fã de carteirinha declarado, rs.

Um artifício interessante da parte da edição (imagino que também seja assim no original) é que, em certos diálogos, há diferentes espaçamentos no meio das frases. Isso acontece pra nos ajudar a tentar perceber o mundo da mesma maneira que Palito o percebe, como algumas palavras que deviam entrar pela orelha que falta acaba entrando pela outra. Isso funciona muito bem, e, para mim, não incomodou de maneira alguma. Além disso, o livro também não tem a orelha direita, o que é uma característica proposital e fantástica, levando em conta a deficiência do protagonista e aproximando mais ainda o material da história.

O final é satisfatório e me agradou bastante, entretanto acho que pode dividir algumas opiniões. Não que o autor não resolva tudo... Digamos apenas que ele deixa certas pontas soltas. Mas, na minha opinião humilde, gosto muito de quando certos aspectos são deixados em aberto e penso que isso combina com o conceito do livro: a vida real não é fácil e nem vai te dar moleza e, sim, vão haver perdas em todos os sentidos, afastamentos e outros empecilhos inevitáveis. Ninguém pode mudar tudo, ou trazer tudo ao seu favor. 

É complicado saber o quanto devo falar deste livro, já que gostei demais. Tudo muito bem, edição ótima, história completa. É o livro que me tirou do fosso.





Espero que tenham tirado proveito e perdão pela demora pra atualizar... Sabe como é, romances da vida real não são fáceis.

Essa é minha deixa, abraços!

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3 comentários

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adorei a resenha! Amo o modo como vc fala do livro, como consegue sentir o sentimento que as páginas nos passam. Continue assim amigão.

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Adorei, ARRASOU! Adoro a forma como você usa as palavras, se expressou muito bem!

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:D Valeu meninas! Que bom que gostaram ^-^